Por Luiza Dalmazo, do COMPUTERWORLD
Publicada em 16 de julho de 2008 – 07h00
Atualizada em 17 de julho de 2008 – 12h59
Empresas reclamam da redução no padrão de formação e afirmam que precisam avaliar 20 profissionais para encontrar um que sirva para o posto.
A discussão sobre o futuro da TI no Brasil em xeque por falta de profissionais tem outro capítulo.
Para os leitores do COMPUTERWORLD que são empresários e professores, a culpa não está nas universidades, mas nos próprios alunos que saem das faculdades cada vez piores.
“Está cada vez mais difícil contratar estagiários para a área de tecnologia”, reclama o administrador de empresas gaúcho João Batista Brogni.
Ele, que trabalha com redes, completa: “É incrível como mesmo os jovens recém-formados não sabem sequer escrever um texto ou expressar as idéias de forma lógica”. O executivo ressalta que o sucateamento do ensino público está gerando profissionais ruins. “A estrutura precisa ser revista. Hoje, os estudantes saem da faculdade uns ‘meia-boca’”, avalia.
> Continuem o debate na CW Connect, rede social do COMPUTERWORLD para profissionais de TI e telecom.
Francisco Leitão, diretor de tecnologia da Radcom, conta que também tem problemas para contratar. Ele diz que, em ordem, seleciona currículos baseado nas noções que os estudantes têm na área para a qual se candidataram, depois ouve os planos de futuro dos universitários, os submete a uma pequena prova sobre os conhecimentos técnicos e, finalmente, avalia a redação.
Mas ele diz que cada vez se assusta mais com os candidatos que recebe. “São vários problemas; tem gente que tem curso de manutenção que não é capaz de reconhecer uma placa mãe”, reclama.
Além disso, ele diz que há também quem, depois de tudo isso, não consiga organizar suas idéias em forma de texto. “Eles comentem erros típicos de alguém que só escreve no MSN”, afirma.
Francisco Leitão garante que a sua empresa investe em treinamento, mas ressalta que quando os profissionais ficam mais qualificados acabam indo para empresas maiores. “A verdade é que há alguns anos o nível dos estagiários era muito melhor”, protesta. Leitão explica que na última seleção realizada, a companhia recebeu mais de 20 currículos, selecionou dois e só um compareceu ao trabalho.
Ione Coco, analista do Gartner para a América Latina, defende que está certo contratar profissionais pelas suas habilidades de matemática (lógica) e escrita. Mas afirma que as pessoas exigem muito dos jovens quando querem detalhes de o que elas querem em relação a seu futuro. “Hoje os jovens vêem um mundo diferente e muito mais amplo por meio da internet – não é fácil para eles saberem o que pretendem ser. Talvez fosse a vez de a área de recursos humanos mudar um pouco”, diz.
Depois de ler no COMPUTERWORLD que as faculdade facilitam as disciplinas para não perder alunos, o professor universitário Alan Carvalho, que trabalha com TI desde 1985, afirma que já ouviu colegas com uma boa definição do cenário nas universidades.
Ele propõe um raciocínio: “atualmente existem dois lados na educação superior em instituições privadas: um que deseja vender um diploma, outro que deseja comprar um diploma. E um chato no meio atrapalhando tudo. Advinhe quem é o que nessa história?”.
O professor também alerta sobre a noção confusa que os jovens têm dos cursos que decidem encarar, o que atrapalha as expectativas de mercado e do profissional. “Tem gente que acha que vai fazer Ciência da Computação para ser programador. Quando chega no primeiro semestre e tem matérias como cálculo, geometria analítica e outras disciplinas básicas, acha que o curso não prepara para o mercado”, destaca.
Segundo ele, o que cada interessado em cursar o nível superior precisa fazer é conhecer as opções de cursos antes de se inscrever na primeira faculdade que aparece. “Há opções para todos os gostos hoje”, completa.
Fonte: ComputerWorld